quinta-feira, 11 de março de 2010

Canção para um Desencontro


Deixa-me errar alguma vez,
porque também sou isso: incerta e dura,
e ansiosa de não te perder
agora que entrevejo um horizonte.
Deixa-me errar e me compreende
porque se faço mal é por querer-te
desta maneira tola, e tonta, eternamente
recomeçando a cada dia como num descobrimento
dos teus territórios de carne e sonho,
dos teus desvãos de música ou vôo,
teus sótãos e porões
e dessa escadaria de tua alma.

Deixa-me errar mas não me soltes
para que eu não me perca
deste tênue fio de alegria
dos sustos do amor que se repetem
enquanto houver entre nós essa magia.


(LYA LUFT)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Deus

Eu me lembro! Eu me lembro! - Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia,
E, erguendo o dorso altivo, sacudia,
A branca espuma para o céu sereno.
E eu disse a minha mãe nesse momento:
"Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver de maior do que o oceano
Ou que seja mas forte do que o vento?"
Minha mãe a sorrir, olhou pros céus
E respondeu: - Um ser que nós não vemos,
É maior que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus!
Casimiro de Abreu

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Mundo é Grande


O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.


Carlos Drummond de Andrade

Canção


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Canção da Plenitude


Não tenho mais os olhos de menina
Nem corpo adolescente, e a pele
Translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
Abrandada pelos anos e o peso os fardos
Bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)


O que te posso dar é mais que tudo
O que perdi: dou-te os me ganhos.
A maturidade que consegue rir
Quando em outros temps choraria,
Busca te agradar
Quando antigamente quereria
Apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
E juventude agora: esses dourados anos
Me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
E não menos ardor, a entender-te
Se precisas, a aguardar-te qando vais,
A dar-te regaço de amante e colo de amiga,
E sobretudo força - que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
Cujas marés - mesmo se fogem - retornam,
Cujas correntes ocultas não levam destroços
Mas o sonho interminável das sereias.


Lya Luft

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Assombros


Às vezes, pequenos grandes terremotos
Ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
Alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
Há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
Já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
Em permanente assombro.


Affonso Romano de Sant'anna

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Soneto


Amo-te quanto em largo, alto e profundo

Minh’alma alcança quando, transportada,

Sente, alongando os olhos deste mundo,

Os fins do Ser, a Graça entressonhada.


Amo-te em cada dia, hora e segundo:


À luz do Sol, na noite sossegada.


E é tão pura a paixão de que me inundo


Quanto o pudor dos que não pedem nada.



Amo-te com o doer das velhas penas;


Com sorrisos, com lágrimas de prece,


E a fé da minha infância, ingênua e forte.


Amo-te até nas coisas mais pequenas.

Por toda a vida. E, assim Deus o quiser,


Ainda mais te amarei depois da morte.



Elizabeth Barret Browning


(Tradução de Manuel Bandeira)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Confidência


Quero lhe falar
De tudo o que me aconteceu.
Dizer-lhe tantas coisas desse mundo meu
Quero lhe contar,
As ilusões e os sonhos meus,
Estão gastos, quase mortos
Não sei mais o que é amar!
Quero lhe mostrar
O lado bom que se perdeu,
E juntar os destroços,
E tentar me reencontrar.
De tanto ser só
Me acostumei, me acomodei.
Não sei mais ser cativo
Não sei mais me empolgar.
Quero lhe falar
As ilusões e os sonhos meus
Estão gastos, assim como eu.

Sérgio de Carvalho e Camargo

Minha Mãe


Minha mãe era uma criatura pobre,
Ainda mais pobre do que pensa o amigo.
Morrendo moça nem ceitil de cobre,
Jamais guardara para o seu jazigo.
Em cova rasa a que ninguém descobre
No chão anônimo de um cemitério antigo,
Nem cinza existe dessa alma nobre,
A cuja estrela, emocionado eu sigo.
Fraca, franzina, preta, apagada,
Viveu de sonhos, de esperança e fé,
Tombando jovem e a construir a estrada
Por onde eu houvera de a seguir de pé
Humilde, boa, carinhosa, meiga
Jamais clamara uma ofensa a Deus!
Como se fosse missionária leiga,
Tinha na fronte o esplendor dos céus.
Maneiras puras, intenções honestas,
Nem por brinquedo se esqueceu do lar.
As suas dores esplendiam em festas
Em holocausto de dever no altar.
E, suportando a uma penúria horrenda.
Ganhou do mundo um luminoso véu
Morreu sem mácula, sem perder a senda,
Que sai da dor para terminar no céu.

Theóphilo Fortunato de Camargo

JARDIM CREPUSCULAR


Quando chega o entardecer
E contemplo a Tua obra,
Minha alma se prostra aos Teus pés,
Em rendição.

Do meu Jardim Crepuscular
Feito para alegrar Teu coração,
Olho o sol se despedindo,
Diferente a cada dia.

Cada movimento é um Espetáculo Solene!
Cada cor, cada tom, cada contraste,
É um presente aos nossos olhos.

E enquanto vais jogando As Tintas da Sua Paleta,
Espalhando a beleza e a perfeição,
Te ofereço meu Aplauso Silencioso!

Olho o Teu Céu Juncado de Cores
E faço Contigo uma Parceria: A Fotógrafa e o Pintor!
E vou registrando Teus movimentos coloridos,
Teu Balé Celestial!

Assim continuo, Atingindo Corações,
Para quando chegar o dia da minha
Apresentação Final,
Eu possa dizer, sentindo a Carícia Celeste:
Missão Cumprida!

Lígia Regina Spengler, em 05/07/2004


*Este poema é muito especial para mim, pois ele foi feito em homenagem à minha mãe, Edith Spengler. Minha mãe é fotógrafa (começou a fotografar aos 72 anos) e faz lindas fotos de pores-do-sol. Ela já fez inúmeras exposições na sua cidade, Blumenau, e em Itajaí(SC). Cada foto da mamãe tem um título, e eu fiz este poema com os títulos das fotos dela (em branco).

**FOTO: BALÉ CELESTIAL by EDITH SPENGLER